sem lua com luz

estive vivendo por lugares sem nome ao longo da costa vicentina. adormecer sem lua e com as estrelas, com o vento, atravessar a rebentação por entre ondas seguidas com o mar a agarrar-te as pernas ou escorregando na pele. encontrar arbustos que brilham, pássaros que saltitam, danças de encontro entre o rio e o mar onde posso nadar para a frente ficando sempre no mesmo lugar, que é sempre outro. ver a água rosa choque, ouvir o céu em camadas de cores. descascar uvas lentamente. pegar o jantar com a ceia a grelhar lulas ao relento. ver o pensamento fluir por entre o que não é humano ou por entre o que não reinvindica ser humano. sentir uma serenidade selvagem que não se prende nas estratégias absurdas para ser compreendido, para ser aceite em determinado grupo social, para me vergar a determinados códigos de regulação da tensão entre corpos. um entendimento corpo mundo que nunca seria outra coisa senão mundo em corpo e corpo em mundo. uma sensação turbulenta de ser o que não és ou de não te apertares em formas desenhadas à força que foram restringindo a experiência da escuta de existir  a linhas modelo preocupadas em classificações e recortes.amor.

também vivi humanos zangados, gritarias a saltar como apitos da panela de pressão, auto-amputações, auto-punições, confrontos peito a peito, ansiedades vibrantes que querem ter a certeza que tudo permanece imutável e descritível só para garantir que a paleta de experiência de estar vivo não ondula nem que isso queira dizer arrastar os sapatos do corredor para o quarto agarrado a um jogo qualquer com a desculpa de que tens o direito de te alienar quando não estás em horas de funcionamento na rodaviva daquilo que achas que tens que fazer para manter o direito à vida…vi prolongar o desajuste de matares essa vida para estar com a vida numa frequência que não abane as coisas…

também vejo como, se atravessares a rebentação que às vezes teima em levar-te a pensar que não há outra possibilidade senão voltar para a praia e ficar a ver a vida de longe, o corpo desliza em diagonal não esquecendo que é mar e que o mar também é corpo.

sofia

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